sábado, 29 de setembro de 2018

Sobre Capivaras e Bolsominions

Por mais engraçados que sejam os eventos X contra o Coiso, e por mais que eu o ache asqueroso, não participarei de nenhum eventodo gênero -- nem pra ver a família de capivaras fofinhas cruzando a rua contra Bozonaro.

Repudio todas suas "ideias" (aspas por motivos óbvios) e tudo o que ele representa. Não gosto dos seus eleitores, assim como não os respeito, apenas os tolero.

Pessoalmente, acho que a eleição do Trump nos Estados Unidos e as intenções de voto no Brasil demonstram que a democracia, se entendida literalmente considerando a etimologia da palavra, falhou. Não se pode dar poder à maioria pois a maioria muitas vezes é burra (veja as pesquisas eleitorais para presidente, primeiro turno).

Não sou alguém legal; prefiro manter meus princípios a manter "amiguinhos". Não conseguiria ser amigo de Bolsominions. No entanto, sou um defensor do livre e irrestrito direito de expressão por todos os cidadãos na esfera individual. Isto significa que não aprovo o que o Deputado Bozonaro diz, mas não tenho nada contra o indivíduo Jair Bozonaro falar merda para seus amigos no bar, por pior que seja o que ele esteja falando. Pra mim, Popper só vê paradoxo na tolerância porque não dá o devido peso às coisas, como direitos naturais. [Que venham as pedradas...]  Não entrarei no assunto dos discurso de ódio, pois tenho uma posição bem particular quanto a eles e teria que escrever um tratado para explica-la sem que seja mal interpretado.

Toda vez que penso que a democracia tem falhado e que nem todos deveriam ter o direito a voto, penso que é impossível avaliar cuidadosamente a quem o poder do sufrágio universal lhe seria permitido. Dada esta impossibilidade, acredito que a única conclusão lógica é a de que todos deveriam ter o direito ao voto. Sendo assim, a lógica me força a ser democrático.

No espírito da democracia em sua mais ampla acepção, acredito que O-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado tem o direito de concorrer a presidente. Também acredito que as pessoas têm o direito de se manifestar contra ele, e espero que as manifestações convençam alguns a não votarem nele. 

Compreendo que sua homofobia e misoginia sejam motivos para repudio, mas acho perigoso acusar qualquer pessoa de qualquer coisa sem que ele nada tenha feito como presidente. É ingênuo achar que ele vai mudar de opinião, e sua própria campanha é baseada nestes discursos repugnantes. No entanto, existe uma diferença entre prometer algo e efetivamente fazê-lo. Não quero ver isto acontecendo, por isto não votarei nele, mas não quero me mobilizar contra um candidato à presidência num estado democrático apenas para fins preventivos, sem que ele tenha efetivamente feito algo. 

Em resumo, não tomarei parte nas manifestações. Mas deixo aqui meu solene apoio à causa #eleNao e às próprias manifestações.

Posso estar errado, mas esta é a postura mais coerente com meus pensamentos, acredito  eu, porém, sem muita certeza.

#eleNao #eleNunca #todosContraOCoiso #todosContraOBolsonaro

sábado, 7 de abril de 2018

Réquiem das sete vuvuzelas


Da tranquilidade do meu lar, meu trabalho foi interrompido por um som ensurdecedor. Saindo do estado de foco em que me encontrava, pulei imediatamente da cadeira. Não sou religioso, e nem sequer acho que deus (sim, com 'd' minúsculo) existe (adoraria estar errado sobre isto), mas neste momento o Pai Nosso me veio à cabeça, afinal, para quem cresceu num país cristão, Pascal fora um excelente apostador. O objeto demoníaco cujo som me atormentava poderia ser a primeira trombeta do apocalipse - uma vuvuzela.

♪ E o sol da liberadade, em raios fúlgidos, Brilhou no céu da pátria neste instante.♪
Foi este trecho do belíssimo hino que ouvi logo em seguida. Ora, mas quem estaria curtindo um Francisco Manuel da Silva nesta altura num sábado à noite? Me dirigi à sacada.

Eis que sou afligido pelo penetrante som da segunda vuvuzela. Pensei em mil formas de utilizar este objeto como instrumento de tortura contra quem o estava manuseando. Prefiro não expor a vocês meus pensamentos mais íntimos; mas digo que dentre outras coisas, me agradaram ideias que combinavam a vuvuzela com: fios elétricos e água, gás e fogo, cordas e caixas de som. 

Gritos de comemoração vinham das ruas, junto com a terceira trombeta. O apocalipse que João profetizara parecia se aproximar. 

♪ Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida no teu seio mais amores. ♪

Mas ♪ Não Existe Amor em SP ♪. A besta se erguia à distância e de uma cabeça ouvi gritos de "Lula na cadeia, Lula na cadeia".  Nunca pensei que a bíblia pudesse ser interpretada ao pé da letra, mas admito que João quase acertou ao dizer que no apocalipse surgiria uma besta. Ele só não previu que seriam tantas!

Sem consideração pelos vizinhos, animais e por ninguém, um espetáculo pirotécnico foi iniciado. Podia-se notar que os fogos saíam das bocas de cabeças da besta. Os cachorros da vizinhança latiam em desespero, pois afinal, animais conseguem pressentir eventos cataclísmicos antes que eles aconteçam, e o apocalipse era iminente.

Voltei ao quarto, sentei-me em frente ao computador e li a notícia que o ex-presidente Lula fora preso. Lembrei do "causo" contado pelo mineiro Carlos Drummond de Andrade em A Morte do Leiteiro: "Se era noivo, se era virgem, se era alegre, se era bom, não sei, é tarde para saber". Eu diria que é cedo pra saber -- segunda instância.  E personificando a Constituição de 1988, acredito que seu artigo quinto, inciso LVII, concordaria comigo. Mas a besta tem sete cabeças (com pouco uso) e é muito barulhenta. Também há relatos da existência de uma outra besta com 11 cabeças, mas parece que só cinco delas não são decorativas.

♪ Mas, se ergues da justiça a clava forte, Verás que um filho teu não foge à luta ♪

Da sacada de meu apartamento em São Paulo, após mais duas trombetas ouço o hino nacional novamente. Os fogos, as vuvuzelas, os gritos e as festinhas, tudo indicava que a Copa fora antecipada. Infelizmente, não era a Copa; a desgraça alheia foi o motivo desta comemoração. Indícios de ocultação de bens e possível envolvimento em corrupção são suficientes para trazer à luz a asquerosa natureza da elite paulistana, que ignóbel à importância do ex-presidente na vida de quem estava em situação de real miséria, se sente infeliz com a diminuição da desigualdade social. Se não for por este motivo, não consigo entender o porquê de tanto ódio. Certamente não é a corrupção, pois a mesma gente que comemora a prisão do Lula como se fosse um jogo de futebol também vota naqueles-que-não-podemos-nomear, do partido que tem governado SP há tempos.

Corrupto ou não, nada justifica o macabro espetáculo que presenciei. Um homem, inocente ou culpado, estava tendo sua liberdade tolhida. Se culpado, é no mínimo triste ver alguém que tanto fez pela população se rebaixar e se envolver em crimes como estes. Se inocente, é triste vê-lo sendo condenado injustamente. Ou talvez os dois sejam, em parte, verdade. Só não vejo motivos para tantos festejos.

Após uma acalorada discussão no Facebook, cidadãos de bem (ou seria cidadãos de bens...?) esbravejavam asneiras. Seus comentários assemelhavam-se à merda que saía da boca de uma das cabeças da besta. Pessoas supostamente inteligentes faziam questão de compartilhar no Facebook que estavam "assistindo o Lula ser preso" ou coisas do gênero.

Ante às cenas de horror que eu presenciava, o som de mais uma vuvuzela soou como a badalada de um sino. Eu contemplava o episódio perplexo, com um misto de ódio pela besta que viera trazer o apocalipse, e de tristeza por ver que o apocalipse começara muito antes, quando a voz mais alta prevaleceu sobre a voz mais sensata, quando a educação falhou em formar mentes críticas, e quando deixamos política ser tratada como futebol.

♪ Dos filhos deste solo és mãe gentil, Pátria amada, Brasil. ♪

"Está salva a propriedade. A noite geral prossegue,  a manhã custa a chegar", nas palavras de Drummond. Aguardando o som da sétima trombeta, me agarro ao último fio de esperança, e torço para que a manhã (outubro) chegue logo. Infelizmente, a demonstração de hoje indica que a posse do próximo presidente será marcada pelo som da última vuvuzela.






























quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

ÜBERMENSCH, CAEIRO, SATORI, E O ANIVERSÁRIO DE DEZ ANOS DO BLOG

Há exatamente dez anos inaugurei este blog, Tabacaria do Zaratustra.

A postagem inicial, como não poderia deixar de ser, foi meu então poema preferido, Tabacaria, escrito por Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa). Sempre me perguntei por que dentre os heterônimos de Pessoa todos reverenciavam Alberto Caeiro como um grande mestre. Até pouco tempo atrás não conseguia compreender como Campos podia curvar-se diante do humilde pastor cujos textos não eram capazes de transcender a constatação do óbvio, cuja aparente rasura nem sequer se comparava à complexa lógica e à profundidade dos escritos de Campos. 

Em uma década muito aconteceu e o moleque que escrevera as postagens de 10 anos atrás não mais existe. Experiências verdadeiramente transformadoras mudaram minha forma de ver o mundo. A mais marcante delas aconteceu este ano e me fez perceber porque Caeiro é tido como mestre por todas as personas de Pessoa. Agora consigo apreciar a admiração demonstrada por Campos ao escrever (referindo-se a Caeiro) 
Foi durante a nossa primeira conversa. Como foi não sei, e ele disse: 'Está aqui um rapaz Ricardo Reis que há-de gostar de conhecer: ele é muito diferente de si'. E depois acrescentou, 'tudo é diferente de nós, e por isso é que tudo existe'. Esta frase, dita como se fosse um axioma da terra, seduziu-me com um abalo, como o de todas as primeiras posses, que me entrou nos alicerces da alma. Mas, ao contrário da sedução material, o efeito em mim foi de receber de repente, em todas as minhas sensações, uma virgindade que não tinha tido.

Agora estou em posição de apreciar as palavras deste mestre ao dizer
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...

E finalmente consegui compreender o quão profunda é a real simplicidade das coisas, conforme colocada por ele:

Porque o único sentido oculto das coisas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
(...)
Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: -
As coisas não têm significação: têm existência.
As coisas são o único sentido oculto das coisas.

Eu poderia contextualizar melhor estes trechos, mas em futuros posts pretendo retomar a discussão sobre a natureza das coisas e o sentido (ou falta de sentido) da existência.
A segunda parte do nome do blog, Zaratustra, refere-se ao personagem da célebre obra Assim Falou Zaratustra, de autoria do filósofo Friedrich Nietzsche.

Nesta obra encontra-se uma das mais célebres frases de Nietzsche: "Deus está morto". Esta não deve ser interpretada literalmente, pois para Zaratustra Deus  nunca existiu. Seu real significado é o triunfo da racionalidade científica sobre a religião. A ruptura com o ethos cristão leva a uma relativização dos valores morais que deixam de ser absolutos, o que para Nietzsche leva ao niilismo.  Argumento similar fora utilizado por Hegel antes de Nietzsche, em Fenomenologia do Espírito.

O segundo ponto que julgo mais importante em Assim Falou Zaratustra é a introdução da figura do Übermensch, o 'super-homem', cujo advento marcaria a morte de Deus. Neste contexto, Zaratustra diz:

Eu vos ensino o super-homem. O homem é algo que deve ser superado. Que fizeste para superá-lo?
(...)
O super-homem, eis o real sentido da terra. Que a vossa vontade diga: que o super-homem se torne o sentido da terra. Suplico-vos, irmãos, sede fiéis à terra e não acreditais naqueles que vos falam de esperanças extraterrenas.

Zaratustra também personifica o estado de niilismo atingido após o surgimento do Übermensch, cujas ações potencialmente criariam novos valores morais para preencher o estado de nil.

Anteriormente eu descrevi minhas experiências recentes que foram genuinamente transformadoras. Parte desta foi a visita ao real estado de nil, onde constantei o vazio existencial e divaguei acerca 'sentido íntimo das coisas'  sobre o qual Caeiro escrevera. Senti como se Zaratustra tivesse narrado minha ascensão a Übermensch. Entretanto, esta fora apenas momentânea (mas não podia ser momentâneo porque não existia tempo).

Atingi o estado de satori e finalmente vim a perceber que Caeiro é deveras um mestre, que "O único sentido íntimo das coias / É elas não terem sentido íntimo nenhum." e que "os meus pensamentos são todos sensações.". Agora "Sinto meu corpo deitado na realidade, / Sei a verdade e sou feliz."

Por fim, uma década após meu primeiro post jamais conseguiria imaginar que o título deste blog, Tabacaria do Zaratustra, seria um prelúdio à transcendência que eu viria a experimentar recentemente. Visto isto, graças à observação de uma amiga acredito que é hora de reviver o blog, em seu decenário.