sábado, 21 de março de 2020

A ciência brasileira em tempos de pandemia

Para você, no Brasil, que acordou em quarentena, se perguntando quando essa loucura vai acabar, lembre-se que existem cientistas no Brasil e no mundo trabalhando intensamente para encontrar uma vacina, estudando formas de conter o avanço da epidemia, etc.

No Brasil, muitos desses são doutorandos que ganham bolsas de 2200 reais, e pós-doutorandos que recebem meros 4100 reais. Não vou nem dizer que é ridículo que alguém com um doutorado seja tratado como um mero bolsista, sem direitos trabalhistas e com um salário baixíssimo para o nível de qualificação.

São essas pessoas que estão trabalhando por vocês. Elas acordaram com a triste notícia de que ainda mais bolsas serão cortadas pelo Ministério da Educação. Em 2019 a ciência brasileira foi quase obliterada por um governo de apedeutas que tentaram fazer da esfericidade da Terra uma questão de ideologia política. Infelizmente, ela não vai sobreviver a mais cortes.

Acho que esta crise mostrou a importância da ciência.  Não precisa ser um gênio para perceber que o país que encontrar uma vacina primeiro vai comercializá-la mais cedo e salvar muitas vidas. E se não for o primeiro, produtos nacionais são mais baratos que produtos importados, no geral, então continua sendo bom termos a nossa própria vacina.

Imagine se alguém conseguisse desenvolver testes do vírus a preço de banana, o quanto isso seria útil e possivelmente rentável.
Hoje a ameaça é o COVID-19. Amanhã poderá ser um asteróide, ou outra coisa. A única forma de estar preparado é através do contínuo INVESTIMENTO EM CIÊNCIA. As coisas não podem ser resolvidas de uma hora pra outra; anos de trabalho são necessários e as verbas não podem ser cortadas.

O INVESTIMENTO EM CIÊNCIA deve se tornar uma política de Estado e não uma bandeira de cada governo. Esse é um investimento necessário para nós mesmos e para as futuras gerações, para o Brasil e para o mundo.

domingo, 4 de agosto de 2019

Bem-vindos à Máquina

Como um grande apreciador de Pink Floyd, estava recentemente (re-)ouvindo a discografia da banda. Detive-me, primeiramente, em Wish You Were Here, do álbum homônimo de 1975. Não pude deixar de notar que parte do texto tem notáveis semelhanças com o presente.

Transcrevo, aqui, um trecho da música:
Do you think you can tell?
Did they get you to trade
Your heroes for ghosts?
Hot ashes for trees?
Hot air for a cool breeze?
Cold comfort for change?
(...)We're just two lost souls
Swimming in a fish bowl
Year after year
Running over the same old ground
And how we found
The same old fears
Wish you were here


Recentemente, o presidente Jair Bolsonaro demitiu o diretor do  Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Ricardo Galvão. O motivo: análises do INPE indicam um aumento de 40% no desmatamento da Amazônia em relação ao mesmo período do ano passado. Governos de muitos países têm agido buscando minimizar o impacto humano no meio-ambiente. Naturalmente, a preservação da maior floresta tropical do mundo é de interesse global. Portanto, a divulgação desses resultados comprometeu a imagem do Brasil. Bolsonaro não gostou e atacou Ricardo Galvão de forma "pusilânime e covarde", além de questionar os resultados. Que competência científica tem o presidente para questionar resultados científicos de doutores (e obviamente me refiro a quem tem doutorado, não a médicos -- apesar de que nesse caso eles atuam como médicos do planeta) que dedicam suas vidas a estudar o Universo? Vale enfatizar que ele está questionando dados, sem oferecer nenhum suporte aos seus "argumentos".

É "compreensível" (não, não é) que Bolsonaro assim queira fazer, afinal, sua base eleitoral e financeira é composta por grandes latifundiários a quem o desmatamento favorece. O problema é que a população, ignorante, oferece suporte ao presidente. Aliás, nisso o presidente e seus aliados têm obtido êxito, em disseminar a desinformação. Eles conseguiram fazer com que o povo trocasse árvores por cinzas (hot ashes for trees), a brisa fresca pelo ar quente (hot air for a cool breeze) e a mudança pela gélida comodidade (cold comfort for change).

Na era da pós-verdade e da desinformação, é importante que as pessoas entendam a importância da preservação ambiental e o impacto das mudanças climáticas.  Esse é um fato científico. É inegável que a ação humana tem sido a maior responsável pelo processo de aquecimento global. Mas elas não parecem entender isso. Não percebem que somos apenas duas almas perdidas nadando num aquário, ano após ano, correndo sobre o mesmo velho chão (We're just two lost souls swimming in a fish bowl, year after year). A destruição do planeta afeta ricos, pobres, direita e esquerda. Ela afeta a todos igualmente.
O aquecimento global pode ser fatal. É o tão profetizado "apocalipse" ou fim do mundo, que permeia todas as culturas desde os tempos mais primórdios. Hoje, só alguns de nós encontramos os mesmo velhos medos (... we found the same old fears). Os mais destemidos (ou burros), presos à ditadura do capital, não só nada fazem a respeito, como também destroem, ainda mais, o planeta.
A demissão do diretor do INPE pela divulgação de resultados científicos, que seguramente podem ser reproduzidos por milhares de especialista com acesso aos dados, é uma medida obscura e autoritária. Aliás, atos de censura como este mostra a postura tirânica do governo Bolsonaro.
No álbum The Final Cut (1983), a música The Fletcher Memorial Home imediatamente me remeteu ao ano de 2019. Composta por Roger Waters, esse genial manifesto sobre a ascensão do populismo após a Segunda Guerra Mundial não é um retrato somente daquela época. 

 



O título da música faz alusão a Eric Fletcher Waters, pai do compositor, morto na Segunda Guera Mundial quando Roger era ainda um bebê. A cada verso, ele tece duras críticas a governos tiranos -- como o de Bolsonaro. Em 2019, Bolsonaro e Trump certamente seriam referenciados nessa música, uma vez que o Memorial Fletcher [dada a etimologia da palavra, achei 'memorial' uma tradução adquada] é casa para incuráveis reis e tiranos (The Fletcher Memorial Home for incurable tyrants and kings). 

O suporte que Bolsonaro recebe de grande parte da população brasileira é assustador. E a situação é de tal calamidade que o povo diz que não precisa de educação (We don't need no education). E eis a raiz de todos os problemas. Povo com boa educação não elege bolsonaros. O orçamento da educação está dimuindo e o lobby do ensino superior privado está forte. Não sei por quanto tempo a universidade pública resistirá. 

Minha esperança é que grandes acordos comerciais como o entre o Mercosul e a União Europeia consigam limitar o poder destrutivo do governo Bolsonaro no que diz respeito a questões ambientais, já que quando o assunto é dinheiro o governo pensa duas vezes. A observação do Acordo de Paris, por exemplo, poderia ser uma cláusula do referido acordo comercial.  

O planeta está morrendo, o país está sangrando, e as pessoas não percebem que estamos à beira do precipício, próximos do corte final (the final cut).




quarta-feira, 31 de julho de 2019

Glenn Greenwald, VazaJato e Liberdade de Imprensa

Agora que o Glenn Greenwald ficou conhecido no Brasil, aproveito esta quinta-feira para recomendar dois livros dele que li há alguns anos, na época em que o caso Snowden veio a público.

Com esses livros, acho que podemos entender bem como o Glenn age e pensa, de forma que o The Intercept não vazaria informações falsas propositalmente. (Apesar de que agora qualquer pessoa minimamente inteligente já concluiu que as mensagens do Moro são verdadeiras.)

O primeiro desses livros é "With Liberty and Justice for Some" (Liberdade e justiça para alguns), um trocadilho com "with liberty and justice for all", que encerra o juramento de fidelidade que os americanos fazem frente à bandeira dos EUA -- inclusive diariamente nas escolas -- o usual patriotismo americano exacerbado. 

O subtítulo diz muito sobre o conteúdo do livro: "How the law is used to destroy equality and protect the powerful" (Como a lei é usada para destruir a igualdade e proteger os poderosos).

No outro ("No Place to Hide") ele conta em detalhes como obteve as informações de Edward Snowden, que revelaram o esquema de espionagem da NSA. Quem já assistiu ao filme do Snowden vai se identificar com esse.

A pessoa que expôs o maior esquema de espionagem governamental e violação de diretos, que combateu de frente o governo americano, que ganhou o prêmio Pulitzer por isso, publica textos no Brasil expondo membros do alto escalão do governo e da Lava Jato, e o Bostonaro decide atacá-lo e chamá-lo de criminoso.

Aparentemente o conceito de liberdade de imprensa ainda não chegou ao Palácio do Clã dos Bostoranjas em Burrolândia.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

The Arrest of Julian Assange

Today, April 11th 2019, Julian Assange, founder of Wikileaks, has been arrested.

The arrest of Julian Assange is a violation of human rights and international law. He is being charged for disclosing information that should be public, in the first place. Wikileaks is the new press; as such, its freedom should be ensured.

In the video “Collateral Murder”, published by Wikileaks, one can see that the real criminal is the US government who, besides invading a sovereign nation (Iraq), also killed civilians. This is unacceptable; no government should be allowed to commit such atrocities. 

The mass surveillance projects like PRISM were also made public through Wikileaks. Edward Snowden had to flee the country, many others were threatened. Needless to say, this survaillance state was a transgression and a crime against the people of the USA.

It is understandable that both the US and the UK, as well as their allies, would want someone to take the blame for disclosing their misdeeds. Just remember who the real criminals are.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

About the brazilian presidential elections

To my foreign friends,
As many of you might have seen, Brazil has elected an extremist right-wing authoritarian who often flirts with fascism.
I followed these elections closely and I can assure you that the international press has done a great job in explaining what the recently elected brazilian president, Jair Bolsonaro, is, what he's done, and what he thinks. Unfortunately, most brazilians didn't get it. In any case, I will summarise some of the points:
- He was formerly in the Army, and he venerates the military dictatorship in Brazil (1964-1985).
- He recently said that the "red threat" should be banned. Sounds like Truman doctrine arrived in Brazil more than half a century late.
- In his speech during the impeachment of the former president Dilma Rousseff, he praised Colonel Ustra, who tortured hundreds of people during the dictatorship. In another occasion he also said: "everybody knows I'm in favour of torture".
- His comments about women reflect his misogynous views. According to him, "some of them can even do a good job". He believes women should earn less than man for getting pregnant. In his own words, he had four sons and after a moment of weakness he got a daughter.
- He declared that he would rather have a dead son than a gay one.
- Teaching kids to do finger guns seems to be one of his campaign strategy, which reflects his pro-guns stance.
- What worries me the most are his recent comments saying that the minorities should adapt to the majority during his government, or leave. This does smell like fascism.
For all of you who are asking how the hell did this guy get elected, I have to say that most people are politically iliterate and they were easily deceived by fake news. Every single brazilian knows someone who believes in conspiracy theories and fall for the "red-threat narrative".
Not all brazilians support Bolsonaro. I am very proud to say that the overwhelming majority of my friends are speaking out against him. We stand against racism, homophobia, misogyny, and all kinds of prejudices. We hold our personal views as such and strive to maintain a secular country. This has been very hard in light of the large reach of the neo-pentecostal churches.
Brazil is still a developing country. Most people are not well educated, crime is widespread. We are not savages. We have great people and the results of these elections do not represent us all.
I'm not sure he'll do what he promises. Honestly, I think the threat-to-democracy card has been a bit overplayed as Congress, Senate, and Supreme Court can and will hopefully hold him back. But I am frightened to have someone who legitimises hate leading the country. People are already starting to get hurt by his followers. I think the Human Rights Watch is right to keep an eye open because the situation may escalate.
Finally, I'm sorry, rest of the world, for electing the president that will f**k with our planet even more. Climate change and rainforest preservation are not in his agenda.

Uma tragédia brasileira

Nesta triste manhã de segunda-feira, 29 de outubro de 2018, tento escrever este texto. Gostaria de entender o que estou sentindo para poder compartilhar aqui, mas tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu. Este misto de tristeza e ódio me remetem ao menino de 2018 a quem de chamavam anarquista. Porém meu ódio é o melhor de mim.  Com ele me salvo e dou a poucos uma esperança mínima. 

Sei que escrevo com muito ódio, e deixo transparecer minha dor. Mas sei que uma dor assim pungente não há de ser inutilmente a esperança. Por isto, resolvi escrever este texto.

Os termos "fascismo" e "comunismo" foram usadas demasiadas vezes fora de contexto durante este período eleitoral. Nem os "vermelhos", nem eu, nem ninguém está dizendo aos trabalhadores do mundo para uni-vos. Assim como não estávamos presenciando uma ameaça comunista, quero acreditar que não estamos presenciando uma ameaça fascista. Por hora, mesmo que eu não goste do resultado das eleições, este foi um pleito democrático.  Respeita-lo-ei. Com "sorte", após algum tempo de governo ruim, veremos que os receios de um regime autoritário foram exacerbados.

Como o Brasil está em crise, acredito que qualquer plano econômico já conseguirá significativas melhoras. Acredito que o Legislativo e o Judiciário possam conter um pouco do avanço das agendas retrógradas do Executivo.

Não acredito que este seja o Reveillón de 2018 para 1964. Não quero acreditar nas coisas que aprendi nos livros. Não quero acreditar que ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais. Espero não estar errado ao supor que mesmo que os pensamentos de Bolsonaro sejam abomináveis, ele não implementará tudo o que disse (nem acho que ele seja inteligente o suficiente para tal).

Ele já legitimou, através de sua candidatura, muitos discursos de ódio latentes em nossa sociedade.  Ataques a minorias, a índios, a negros, já começaram. Não pensam os agressores que somos todos iguais, braços dados ou não. A todxs que temem por sua integridade física: não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Aos eleitores do Bolsonaro, só tenho uma coisa a dizer: a cada pessoa que for linchada - sim, é isto que seus discursos incitam e é isto que já tem acontecido - eu lembrarei de vocês. A cada universidade que for invadida, eu lembrarei de vocês. E se o que muitos temem acontecer (um golpe militar), eu lembrarei de vocês. Não permitirei que a roda viva carregue este teclado pra lá.

Muitos votaram 17 por ignorância. Perdoe o cidadão esperançado minha lembrança de ações miseráveis, que levantam os homens do passado.  No entanto, muitos decidiram conscientemente ignorar os avisos. Tomara que eu esteja errado e não chegue a este ponto, mas vocês são responsáveis pelo que acontecer de agora em diante. Apesar de vocêS amanhã há de ser outro dia.

É triste ver os filhos da revolução, a geração coca-cola, votar em capitão de zero estrelas que fica atrás da mesa com o cu na mão. Independentemente de como ele governe, já perdemos ao deixar alguém assim chegar tão longe. Já perdemos ao permitir que seu discurso fosse materializado e legitimizado.

Mas não nos entristeçamos. Vejamos isto como uma oportunidade, afinal, uma flor nasceu na rua! É feia. Mas é realmente uma flor. Esta pode ser a primeira flor da primavera. Ela pode ser a gota que falta pro desfecho da festa. Pode ser a gota d'água.





sábado, 29 de setembro de 2018

Sobre Capivaras e Bolsominions

Por mais engraçados que sejam os eventos X contra o Coiso, e por mais que eu o ache asqueroso, não participarei de nenhum eventodo gênero -- nem pra ver a família de capivaras fofinhas cruzando a rua contra Bozonaro.

Repudio todas suas "ideias" (aspas por motivos óbvios) e tudo o que ele representa. Não gosto dos seus eleitores, assim como não os respeito, apenas os tolero.

Pessoalmente, acho que a eleição do Trump nos Estados Unidos e as intenções de voto no Brasil demonstram que a democracia, se entendida literalmente considerando a etimologia da palavra, falhou. Não se pode dar poder à maioria pois a maioria muitas vezes é burra (veja as pesquisas eleitorais para presidente, primeiro turno).

Não sou alguém legal; prefiro manter meus princípios a manter "amiguinhos". Não conseguiria ser amigo de Bolsominions. No entanto, sou um defensor do livre e irrestrito direito de expressão por todos os cidadãos na esfera individual. Isto significa que não aprovo o que o Deputado Bozonaro diz, mas não tenho nada contra o indivíduo Jair Bozonaro falar merda para seus amigos no bar, por pior que seja o que ele esteja falando. Pra mim, Popper só vê paradoxo na tolerância porque não dá o devido peso às coisas, como direitos naturais. [Que venham as pedradas...]  Não entrarei no assunto dos discurso de ódio, pois tenho uma posição bem particular quanto a eles e teria que escrever um tratado para explica-la sem que seja mal interpretado.

Toda vez que penso que a democracia tem falhado e que nem todos deveriam ter o direito a voto, penso que é impossível avaliar cuidadosamente a quem o poder do sufrágio universal lhe seria permitido. Dada esta impossibilidade, acredito que a única conclusão lógica é a de que todos deveriam ter o direito ao voto. Sendo assim, a lógica me força a ser democrático.

No espírito da democracia em sua mais ampla acepção, acredito que O-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado tem o direito de concorrer a presidente. Também acredito que as pessoas têm o direito de se manifestar contra ele, e espero que as manifestações convençam alguns a não votarem nele. 

Compreendo que sua homofobia e misoginia sejam motivos para repudio, mas acho perigoso acusar qualquer pessoa de qualquer coisa sem que ele nada tenha feito como presidente. É ingênuo achar que ele vai mudar de opinião, e sua própria campanha é baseada nestes discursos repugnantes. No entanto, existe uma diferença entre prometer algo e efetivamente fazê-lo. Não quero ver isto acontecendo, por isto não votarei nele, mas não quero me mobilizar contra um candidato à presidência num estado democrático apenas para fins preventivos, sem que ele tenha efetivamente feito algo. 

Em resumo, não tomarei parte nas manifestações. Mas deixo aqui meu solene apoio à causa #eleNao e às próprias manifestações.

Posso estar errado, mas esta é a postura mais coerente com meus pensamentos, acredito  eu, porém, sem muita certeza.

#eleNao #eleNunca #todosContraOCoiso #todosContraOBolsonaro

sábado, 7 de abril de 2018

Réquiem das sete vuvuzelas


Da tranquilidade do meu lar, meu trabalho foi interrompido por um som ensurdecedor. Saindo do estado de foco em que me encontrava, pulei imediatamente da cadeira. Não sou religioso, e nem sequer acho que deus (sim, com 'd' minúsculo) existe (adoraria estar errado sobre isto), mas neste momento o Pai Nosso me veio à cabeça, afinal, para quem cresceu num país cristão, Pascal fora um excelente apostador. O objeto demoníaco cujo som me atormentava poderia ser a primeira trombeta do apocalipse - uma vuvuzela.

♪ E o sol da liberadade, em raios fúlgidos, Brilhou no céu da pátria neste instante.♪
Foi este trecho do belíssimo hino que ouvi logo em seguida. Ora, mas quem estaria curtindo um Francisco Manuel da Silva nesta altura num sábado à noite? Me dirigi à sacada.

Eis que sou afligido pelo penetrante som da segunda vuvuzela. Pensei em mil formas de utilizar este objeto como instrumento de tortura contra quem o estava manuseando. Prefiro não expor a vocês meus pensamentos mais íntimos; mas digo que dentre outras coisas, me agradaram ideias que combinavam a vuvuzela com: fios elétricos e água, gás e fogo, cordas e caixas de som. 

Gritos de comemoração vinham das ruas, junto com a terceira trombeta. O apocalipse que João profetizara parecia se aproximar. 

♪ Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida no teu seio mais amores. ♪

Mas ♪ Não Existe Amor em SP ♪. A besta se erguia à distância e de uma cabeça ouvi gritos de "Lula na cadeia, Lula na cadeia".  Nunca pensei que a bíblia pudesse ser interpretada ao pé da letra, mas admito que João quase acertou ao dizer que no apocalipse surgiria uma besta. Ele só não previu que seriam tantas!

Sem consideração pelos vizinhos, animais e por ninguém, um espetáculo pirotécnico foi iniciado. Podia-se notar que os fogos saíam das bocas de cabeças da besta. Os cachorros da vizinhança latiam em desespero, pois afinal, animais conseguem pressentir eventos cataclísmicos antes que eles aconteçam, e o apocalipse era iminente.

Voltei ao quarto, sentei-me em frente ao computador e li a notícia que o ex-presidente Lula fora preso. Lembrei do "causo" contado pelo mineiro Carlos Drummond de Andrade em A Morte do Leiteiro: "Se era noivo, se era virgem, se era alegre, se era bom, não sei, é tarde para saber". Eu diria que é cedo pra saber -- segunda instância.  E personificando a Constituição de 1988, acredito que seu artigo quinto, inciso LVII, concordaria comigo. Mas a besta tem sete cabeças (com pouco uso) e é muito barulhenta. Também há relatos da existência de uma outra besta com 11 cabeças, mas parece que só cinco delas não são decorativas.

♪ Mas, se ergues da justiça a clava forte, Verás que um filho teu não foge à luta ♪

Da sacada de meu apartamento em São Paulo, após mais duas trombetas ouço o hino nacional novamente. Os fogos, as vuvuzelas, os gritos e as festinhas, tudo indicava que a Copa fora antecipada. Infelizmente, não era a Copa; a desgraça alheia foi o motivo desta comemoração. Indícios de ocultação de bens e possível envolvimento em corrupção são suficientes para trazer à luz a asquerosa natureza da elite paulistana, que ignóbel à importância do ex-presidente na vida de quem estava em situação de real miséria, se sente infeliz com a diminuição da desigualdade social. Se não for por este motivo, não consigo entender o porquê de tanto ódio. Certamente não é a corrupção, pois a mesma gente que comemora a prisão do Lula como se fosse um jogo de futebol também vota naqueles-que-não-podemos-nomear, do partido que tem governado SP há tempos.

Corrupto ou não, nada justifica o macabro espetáculo que presenciei. Um homem, inocente ou culpado, estava tendo sua liberdade tolhida. Se culpado, é no mínimo triste ver alguém que tanto fez pela população se rebaixar e se envolver em crimes como estes. Se inocente, é triste vê-lo sendo condenado injustamente. Ou talvez os dois sejam, em parte, verdade. Só não vejo motivos para tantos festejos.

Após uma acalorada discussão no Facebook, cidadãos de bem (ou seria cidadãos de bens...?) esbravejavam asneiras. Seus comentários assemelhavam-se à merda que saía da boca de uma das cabeças da besta. Pessoas supostamente inteligentes faziam questão de compartilhar no Facebook que estavam "assistindo o Lula ser preso" ou coisas do gênero.

Ante às cenas de horror que eu presenciava, o som de mais uma vuvuzela soou como a badalada de um sino. Eu contemplava o episódio perplexo, com um misto de ódio pela besta que viera trazer o apocalipse, e de tristeza por ver que o apocalipse começara muito antes, quando a voz mais alta prevaleceu sobre a voz mais sensata, quando a educação falhou em formar mentes críticas, e quando deixamos política ser tratada como futebol.

♪ Dos filhos deste solo és mãe gentil, Pátria amada, Brasil. ♪

"Está salva a propriedade. A noite geral prossegue,  a manhã custa a chegar", nas palavras de Drummond. Aguardando o som da sétima trombeta, me agarro ao último fio de esperança, e torço para que a manhã (outubro) chegue logo. Infelizmente, a demonstração de hoje indica que a posse do próximo presidente será marcada pelo som da última vuvuzela.






























quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

ÜBERMENSCH, CAEIRO, SATORI, E O ANIVERSÁRIO DE DEZ ANOS DO BLOG

Há exatamente dez anos inaugurei este blog, Tabacaria do Zaratustra.

A postagem inicial, como não poderia deixar de ser, foi meu então poema preferido, Tabacaria, escrito por Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa). Sempre me perguntei por que dentre os heterônimos de Pessoa todos reverenciavam Alberto Caeiro como um grande mestre. Até pouco tempo atrás não conseguia compreender como Campos podia curvar-se diante do humilde pastor cujos textos não eram capazes de transcender a constatação do óbvio, cuja aparente rasura nem sequer se comparava à complexa lógica e à profundidade dos escritos de Campos. 

Em uma década muito aconteceu e o moleque que escrevera as postagens de 10 anos atrás não mais existe. Experiências verdadeiramente transformadoras mudaram minha forma de ver o mundo. A mais marcante delas aconteceu este ano e me fez perceber porque Caeiro é tido como mestre por todas as personas de Pessoa. Agora consigo apreciar a admiração demonstrada por Campos ao escrever (referindo-se a Caeiro) 
Foi durante a nossa primeira conversa. Como foi não sei, e ele disse: 'Está aqui um rapaz Ricardo Reis que há-de gostar de conhecer: ele é muito diferente de si'. E depois acrescentou, 'tudo é diferente de nós, e por isso é que tudo existe'. Esta frase, dita como se fosse um axioma da terra, seduziu-me com um abalo, como o de todas as primeiras posses, que me entrou nos alicerces da alma. Mas, ao contrário da sedução material, o efeito em mim foi de receber de repente, em todas as minhas sensações, uma virgindade que não tinha tido.

Agora estou em posição de apreciar as palavras deste mestre ao dizer
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...

E finalmente consegui compreender o quão profunda é a real simplicidade das coisas, conforme colocada por ele:

Porque o único sentido oculto das coisas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
(...)
Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: -
As coisas não têm significação: têm existência.
As coisas são o único sentido oculto das coisas.

Eu poderia contextualizar melhor estes trechos, mas em futuros posts pretendo retomar a discussão sobre a natureza das coisas e o sentido (ou falta de sentido) da existência.
A segunda parte do nome do blog, Zaratustra, refere-se ao personagem da célebre obra Assim Falou Zaratustra, de autoria do filósofo Friedrich Nietzsche.

Nesta obra encontra-se uma das mais célebres frases de Nietzsche: "Deus está morto". Esta não deve ser interpretada literalmente, pois para Zaratustra Deus  nunca existiu. Seu real significado é o triunfo da racionalidade científica sobre a religião. A ruptura com o ethos cristão leva a uma relativização dos valores morais que deixam de ser absolutos, o que para Nietzsche leva ao niilismo.  Argumento similar fora utilizado por Hegel antes de Nietzsche, em Fenomenologia do Espírito.

O segundo ponto que julgo mais importante em Assim Falou Zaratustra é a introdução da figura do Übermensch, o 'super-homem', cujo advento marcaria a morte de Deus. Neste contexto, Zaratustra diz:

Eu vos ensino o super-homem. O homem é algo que deve ser superado. Que fizeste para superá-lo?
(...)
O super-homem, eis o real sentido da terra. Que a vossa vontade diga: que o super-homem se torne o sentido da terra. Suplico-vos, irmãos, sede fiéis à terra e não acreditais naqueles que vos falam de esperanças extraterrenas.

Zaratustra também personifica o estado de niilismo atingido após o surgimento do Übermensch, cujas ações potencialmente criariam novos valores morais para preencher o estado de nil.

Anteriormente eu descrevi minhas experiências recentes que foram genuinamente transformadoras. Parte desta foi a visita ao real estado de nil, onde constantei o vazio existencial e divaguei acerca 'sentido íntimo das coisas'  sobre o qual Caeiro escrevera. Senti como se Zaratustra tivesse narrado minha ascensão a Übermensch. Entretanto, esta fora apenas momentânea (mas não podia ser momentâneo porque não existia tempo).

Atingi o estado de satori e finalmente vim a perceber que Caeiro é deveras um mestre, que "O único sentido íntimo das coias / É elas não terem sentido íntimo nenhum." e que "os meus pensamentos são todos sensações.". Agora "Sinto meu corpo deitado na realidade, / Sei a verdade e sou feliz."

Por fim, uma década após meu primeiro post jamais conseguiria imaginar que o título deste blog, Tabacaria do Zaratustra, seria um prelúdio à transcendência que eu viria a experimentar recentemente. Visto isto, graças à observação de uma amiga acredito que é hora de reviver o blog, em seu decenário.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

O triste dia em que vi um golpe se concretizar

O pior é o bando de ignorantes aplaudindo este atentado à jovem e frágil democracia brasileira. Estes acreditam que a Dilma deva sair por ter sido uma má governante e porque "o PT é o câncer do Brasil". Da noite para o dia tornaram-se exímios juristas conhecedores da Constituição; também sabem recitar de cor a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Estes apedeutas também acreditam que no país há dois tipos de pessoas: petistas e coxinhas. Acreditam que defender a Dilma das acusações (=defender a democracia) implica necessariamente ser petista. Há aqueles que se consideram intelectualmente superiores, e com suas ideias "liberais" tentam inventar argumentos baseados na LRF para justificar o injustificável golpe. 

Há os que dizem "é minha opinião". Opinião é você preferir azul a vermelho ou uva a banana. Apoiar um golpe (sem nem ao menos ganhar nada com isto) é falta de cérebro ou de caráter. Há também os isentões, que não percebem que sua omissão fornece suporte aos golpistas.

Não pretendo discutir com estas pessoas, pois para tal teria de reconhecê-lo(a) como meu par, e todos nós sabemos que um abismo nos separa; posso investir meu tempo de forma melhor.

O mais triste é ver Cristovam Buarque manchando sua reputação, e Kátia Abreu surpreendemente fazendo um dos discursos mais eloquentes de todos.

A imprensa internacional denunciou o golpe, e só não vê quem não quer. Claro, é mais cômodo acreditar na narrativa de que o PT é capaz de comprar o The New York Times, The Guardian, Der Spiegel, Le Monde, El Pais, e todos os maiores jornais do mundo. 

Eu sinceramente espero que estas pessoas percebam a merda que fizeram e, mesmo que atrasados, percebam que apoiaram um golpe. Será tarde demais, mas vale o aprendizado.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Letter to the Brexiters

Dear Brexiters,

Congratulations. You've managed to isolate an already isolated country from the rest of the world.

Congratulations for turning your back on the millions of immigrants who have supported UK's economic growth for decades. If you voted 'leave' you know sh%t about the way economy works and the reason why Britain was an economic power in this last decade

Congratulations for going upstream against the trend of uniting countries and human beings.

Congratulations for allowing the pound to hit a 30-year low.

Congratulations if you vote 'leave' to protect yourself from those foreign devils who come to your country with the evil intentions of stealing your money and live off government benefits (?). Perhaps you should reconsider your position - especially if you think that unskilled workers who can barely speak the language are a threat to your job.

Seriously, who would vote for leaving when those dumbasses of UKIP were leading the leave campaing with stupid "arguments" such as "Britain is stronger", "Stop immigration", etc?

Needless to say, the consequences of Brexit for Science are devastating: funding will be extinguished (e.g. ERC grants and other EU-based funds), scientists will have a hard time with mobility as stricter immigration rules will be approved by the tories and their conservative friends.

It saddens me to see a country such as the UK being so naive to think they would be better off alone. Even if this were the case, integration not separatism is the next step in the social evolution ladder.

On the plus side Scotland will now very likely gain independence and join the EU. Maybe even join the Euro. The pound is gonna be worthless after that.

For analysing things rationally and making such a smart decision, I congratulate the Brexiters again.

Now the only thing left to do is to minimise the losses and start getting ready for the consequences (which might include economic recession).

domingo, 17 de abril de 2016

Hoje eu vi

Hoje eu vi a História sendo construída, um golpe acontecendo na minha frente sem que eu nada pudesse fazer. Vi uma multidão de deputados estúpidos manipulados por uma ardilosa mente egoísta.

Hoje vi que a democracia não funciona, que o voto é uma arma muito poderosa para ficar nas mãos de apedeutas sem capacidade de reflexão e senso crítico.

Hoje vi que todos falhamos ao acreditar que opiniões divergentes, mesmo que insensatas, devem ser respeitadas.

Hoje vi o Estado laico sendo atacado e um deus vingativo que tem filhos prediletos.
Hoje vi que o Brasil está se transformando em uma teocracia.

Hoje percebi que meu país é governado por pessoas de baixíssimo nível, analfabetos políticos (alguns analfabetos funcionais).

Hoje não vi ética, não vi bom senso, não vi educação.

Hoje vi um acontecimento histórico sendo usado para mandar lembranças aos familiares, e a família sendo usada para justificar o injustificável. (Que falta faz o Show da Xuxa pra isto!)

Hoje vi agendas conservadoras sendo aplaudidas e minorias sendo atacadas.

Hoje não vi minorias, não vi muitos negros, não vi muitos homossexuais.

Hoje vi homens "de família" vaiando uma deputada por se ausentar devido à sua gravidez.

Hoje eu vi tudo isto. Outros não viram nada. Mas a História certamente verá este retrocesso.



sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Sobre ondas gravitacionais, os talentos desperdiçados e o Método Científico


Não estou escrevendo este texto para explicar o que são ondas gravitacionais - vários bons textos com este propósito podem ser facilmente encontrados. Venho aqui comentar sobre um comportamento interessante decorrente de uma grande descoberta científica. A mídia anunciou a descoberta de ondas gravitacionais, e de repente surgiram milhares de experts por aí. Fico feliz ao ver o enorme engajamento público, mas triste ao notar o analfabetismo científico que permeia a sociedade. E estes experts também compreendem perfeitamente relatividade geral, mecânica quântica e até mesmo ontologia do espaço-tempo.

Nestas horas percebo o quanto eu sou um m*$da: estudo física há mais de uma década (o que é bem pouco), fiz disto minha carreira, e ainda assim toda vez que tenho uma nova (e aparentemente revolucionária) ideia acho que alguém já deve ter pensado nisto - afinal, eu não sou tão inteligente assim. Por temer o ridículo, baseado em várias coisas que eu estudei por muito tempo (e muito tempo significa muitas e muitas horas - muito mais do que o tempo de leitura de um artigo da Superinteressante e de um documentário do Youtube), eu reflito bastante sobre estas ideias e no final algumas delas sobrevivem. Neste processo eu penso no quão coerente é a ideia, como ela se encaixa com o resto das coisas que sabemos e como podemos testa-la (comprova-la or refuta-la). 
Quando vejo as pessoas que "provaram" que Einstein está errado, que têm uma "teoria" alternativa ao Big Bang, etc, eu me pergunto onde foi que eu errei. Mesmo com tanto empenho eu não consigo conceber estas ideias revolucionárias. Nunca provei que Einstein está errado, nem unifiquei a mecânica quântica com a relatividade, nem provei que o vácuo não existe. Seriam estes talentos desperdiçados? Nas palavras de Álvaro de Campos:

Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo? 

 (trecho de Tabacaria, Álvaro de Campos)

Atrever-me-ei a responder à indagação de Álvaro: não sou mais certo nem menos certo, e de fato não tenho nenhuma certeza. E os "talentos desperdiçados", que surgem com as mais diversas ideias de cuja veracidade eles estão convencidos? Estes concebem suas ideias frequentemente absurdas ignorando o que eu considero o "espírito da Ciência": o Método Científico.

O Método Científico pode, a grosso modo, ser resumido em um conjunto de etapas:
1. Faça uma observação.
2. Elabore uma hipótese para explicar sua observação.
3. Verifique a consistência da sua hipótese em relação ao corpo de conhecimentos já adquiridos.
4. Faça previsões utilizando sua hipótese
5. Verifique experimentalmente ou observacionalmente se suas previsões estão corretas.
6. Se as previsões não estiverem corretas, sua hipótese deve rejeitada. Se estiverem razoavelmente corretas, melhore sua hipótese e repita etapas 4 e 5 até que sua hipóstese esteja de acordo com os experimentos/observações.

O Método Científico é extremamente bem-sucedido. É graças a ele que não morremos aos 35 anos idade, é graças a ele que temos computadores, e é graças a ele que chegamos à Lua. A teoria da relatividade é um exemplo deste sucesso. Várias previsões da teoria da relatividade já haviam sido confirmadas e nenhuma refutada, e por isto a teoria já era considerada um dos pilares da física moderna. A existência de ondas gravitacionais é uma destas previsões, e sua observação é mais uma confirmação da teoria da relatividade. Bastaria uma medição ou observação (devidamente confirmada) que refutasse a teoria da relatividade para que ela fosse totalmente abandonada. Eis a beleza da Ciência.

Uma questão importantíssima que poucas pessoas discutem é o real significado de uma teoria. O Método Científico garante a sobrevivência de teorias que descrevam satisfatoriamente a realidade, mas não diz nada sobre a natureza fundamental da realidade. Descrever a realidade, neste contexto, não é necessariamente o mesmo que ser a realidade. O universo pode se comportar exatamente como prevê uma teoria, ou seja, a teoria é realmente como o universo opera. A teoria também pode ser vista como uma mera descrição da realidade. O Método Científico é agnóstico com relação a estes dois posicionamentos epistemológicos.

 
Voltando aos "talentos deperdiçados", seu desconhecimento do Método Científico é o que os leva a ignorar o processo pelo qual novas hipóteses são validadas e propagar absurdas ideias sem embasamento algum. Enganam-se eles também ao acreditar que a Ciência necessariamente descreve como o universo opera (em vez de como parece operar). Esta preocupante desinformação é consequência do fraco ensino básico em todo o mundo e particularmente no Brasil. Mesmo a nível superior, o curso de "Metodologia Científica" nunca efetivamente trabalha o Método Científico e nunca aborda a as questões epistemológicas relacionadas a Ciência, restringindo-se ao invés disto a forçar pobres estudantes a aprender regras (inúteis) da ABNT. 

É hora de reformar o currículo das escolas. É hora de ensinar como a Ciência deveras funciona ao invés de bombardear os alunos com informações "científicas". É hora de mostrar como o conhecimento científico é construído. Isto evitará os lamentáveis comentários que vemos nas redes sociais quando descobertas científicas são feitas. Isto mostrará às pessoas a importância da Ciência e irá ensina-las a valorizar o trabalho científico.

sábado, 23 de janeiro de 2016

Sobre a frase "Imposto é roubo, sonegação é legítima defesa!"

Anda em ruas com calçada, dirige um carro em ruas asfaltadas, reclama dos problemas de segurança, viaja de avião, tem água em casa, utiliza serviços públicos, e depois vem dizer que: "Imposto é roubo, sonegação é legítima defesa!".

Vamos com calma, galera! Se você acha que imposto é roubo, não utilize coisas que foram regulamentadas pelo Estado e/ou financiadas com dinheiro público. Sejam coerentes com seus discursos, amiguinhos! 

Imposto só é roubo se não houver serviços estatais. A única diferença entre ter serviços privados e públicos é o provedor de serviços. Por um pagamos diretamente, por outro pagamos através de impostos. De qualquer forma pagamos. A diferença é que por um você tem a opção de não pagar. Mas já pensou como seria o mundo se você estivesse sendo sequestrado(a) e um policial da empresa de segurança que você contratou dissesse: "O pacote contratado não cobre sequestros."? Pois é, segurança é algo que felizmente é provida pelo Estado. Infelizmente, o serviço não é bom; mas esta é outra história.

Existem serviços essenciais que devem ser providos pelo Estado. Estes serviços têm um custo. A forma de pagar por isto é através de impostos. Portanto, um Estado mínimo - uma minarquia - é necessário. Você pode discordar de mim sobre quais serviços devem fazer parte disto, mas não me venha dizer que imposto é roubo fazendo uso de serviços financiados com o dinheiro de impostos. O mínimo de coerência que se espera de alguém com este pensamento é que adote uma postura semelhante à de Ayn Rand e defenda uma redução gradual na taxação de impostos.

Naturalmente você pode pensar como eu e acreditar que o Estado é um vilão por tentar regulamentar a vida de um ser vivo que nasceu em uma determinada região geográfica em uma determinada época. Você pode, assim como eu, dizer que nunca assinou o "contrato social". Você pode também, assim como eu, condenar a interferência excessiva do governo na economia [Sim, eu tenho alguns pensamentos liberais, mas não acredito na propriedade privada]. Neste caso você deve estar preparado(a) para aceitar as consequências do caos que seria a ausência do Estado e de leis. Apesar de ser simpático a esta ideia, sei que isto é (atualmente) utópico, e não estou preparado para isto. A ausência de Estado (estado de anarquia) só funcionaria se todas as pessoas possuíssem um compasso moral e um enorme senso de cooperativismo, o que pouquíssimas pessoas possuem. Resta saber se o compasso moral do ser humano é predominantemente determinado pela sociedade, como dizia Rousseau ("O ser humano nasce bom, e a sociedade o corrompe"), ou se é algo inato e imutável. 
 
Portanto, a menos que você seja um genuíno anarquista, você deve (ou deveria) saber o significado de minarquia e compreender que um Estado mínimo requer dinheiro para manter os serviços mínimos funcionando, principalmente se você compartilha constantemente links do instituto Mises. Portanto, repense sua (im)postura ao dizer que "Imposto é roubo, sonegação é legítima defesa!".
 

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Sobre a reportagem de capa da The Economist: "Brazil's Fall"

Lendo o texto com cuidado podemos perceber que apesar do autor do artigo culpar o governo pelo agravamento da crise, o governo tem agido de forma "correta" em alguns aspectos. Veja abaixo alguns trechos comentados do artigo.


1) "Brazil’s suffering, like that of other emerging economies, stems partly from the fall in global commodity prices."
Isto indica que a principal consequência da crise no Brasil é a crise global devido à queda das commodities. Por outro lado:
"But Ms Rousseff and her left-wing Workers’ Party (PT) have made a bad situation much worse."
O governo piorou um cenário que já era ruim.

2) "Brazil therefore has little choice but to raise taxes and cut spending."
Apesar de tudo, aumentar impostos e diminuir gastos é a solução óbvia, segundo o autor do texto. Isto é o que tem sido feito.

3) Há um otimismo em relação ao novo ministro Nelso Barbosa, conforme indicado neste trecho: "Nelson Barbosa may be able to accomplish more as finance minister".

4) "One early test will be whether Mr Barbosa persuades a recalcitrant Congress to reinstate an unpopular financial-transactions tax."
Querem trazer a CPMF de volta - e o autor do artigo concorda. A população vai reclamar, mesmo sem saber  porquê.

5) "To reform work and pensions, Ms Rousseff must face up to problems that have been decades in the making. Some 90% of public spending is protected from cuts, partly by the constitution which, in 1988, celebrated the end of military rule by enshrining generous job protection and state benefits. Because it is so hard to reform, Brazil’s public sector rivals European welfare states for size but emerging ones for inefficiency. Long a drain on economic vitality, Brazil’s overbearing state is now a chief cause of the fiscal crisis."
As políticas assistencialistas e trabalhistas, dentre outras, tornam a vida de todos mais confortável, mas representma um enorme rombo nos cofres públicos devido à sua ineficiência. Reformas são necessárias, mas o povo não vai gostar.

6) "It is therefore hard, despite Mr Barbosa’s advantages, to feel optimistic about the prospects for deep reform. Voters hold politicians in contempt. The opposition is bent on impeaching Ms Rousseff, a misguided battle that could dominate the political agenda for months. The PT has no appetite for austerity. Achieving the three-fifths support in both houses of Congress needed for constitutional reforms will be a tall order."
O autor do artigo aponta que o governo não quer cortar gastos, o processo de impeachment está desgastando o governo, e enquanto isto não há perspectivas para melhoras da economia.

CONCLUSÕES

- O governo é parcialmente culpado pela crise pois sua maneira amadora de lidar com a mesma causou seu agravamento.
- Medidas radicais como a volta da CPMF, reforma da previdência e revisão das políticas de assistência social são necessárias para não reverter os avanços sociais da última década.
- O impeachment não é solução e está mais atrapalhando do que ajudando.
- As sugestões do autor do artigo provavelmente não serão completamente colocadas em prática e o governo provavelmente vai tentar evitar políticas de austeridade fiscal. 
- Soluções que atendem aos interesses e necessidades da população e não do capital são necessárias. Talvez seja melhor ignorar algumas das sugestões do autor.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Governo vs. Congresso: o nocivo embate político

Fazem panelaço contra Dilma e gritam "Fora PT", mas deixam a Câmara fazer o quer... vai entender! Não adianta nada reclamar da presidência e dos rumos do país elegendo este Congresso de merda. Já dizia o ditado: "cada um colhe o que planta".

PTistas, PSDBistas, e cia: enquanto vocês acreditam no maniqueísmo governamental e ficam brincando de classificar os atores políticos brasileiros como bons e maus, direita e esquerda, comunistas e fascistas, eles continuam se comportando como crianças mimadas em um playground, tentando vencer a qualquer custo, e fazendo birra para irritar os coleguinhas. O maior exemplo disto é o Eduardo Cunha​, que [potencialmente] poderia fazer uma real diferença para o país, não fora ele corrupto e individualista.

Hoje li uma notícia comentando sobre a recente aprovação do projeto que prevê o aumentos dos gastos públicos em mais de 2 bilhões. A origem destes gastos é a proposta de emenda constitucional que prevê o atrelamento de alguns salários de funcionários ligados à defensoria e segurança pública ao salário dos ministros do Supremo; não seria melhor reduzir o salário dos ministros? Esta votação foi marcada por um massacre: nem mesmo a base aliada do governo se posicionou contrariamente à proposta, como sugerira o governo.

Além da votação do projeto acima mencionado várias outras votações deixam transparecer o nocivo conflito entre governo (presidente e minisitros) e o Congresso. Este frívolo embate prejudica o país, que num período de crise (sim, ela existe, apesar do "apesar da crise" defendido pelos puritanos), quando medidas de austeridade deveriam ser adotadas, aumenta seus gastos desmesuradamente, veta projetos importantes e aprova outros prepósteros.

O governo não está bom e o Congresso ainda por cima não ajuda. O Brasil precisa ser reunificado e  atual posicionamento de muitos brasileiros é prejudicial. A população, de modo geral, tem constantemente atacado o governo e poupado o Congresso. Não basta reclamar do governo sem saber por que bons projetos não são aprovados; não basta reclamar do governo sem saber a conjuntura econômica no momento que a crise se iniciou (mas tenha em mente que o governo é parcialmene culpado pela mesma); não basta culpar a presidente por problemas cuja origem está no péssimo Congresso, ou na inevitável estagnação econômica após uma década de crescimento acelerado.

Eu, como sempre, sou contra manifestações desnecessárias, e não apenas considero o pedido de impeachment desembasado, injusto e irracional, mas acho também que ele abre perigosos precedentes para o Estado democrático, podendo ter perigosas consequências para o país, as quais os "impitimeiros"  desconhecem ou preferem ignorar. Aos que comparecerão às manifestações do dia 16/08 com esta mentalidade, só sugiro que pensem bem nas razões que lhes compelem a deixar suas casas e irem se manifestar em prol de um Brasil provavelmente pior, culpando um único bode expiatório (que também não é isento de culpa) e fortalecendo grupos políticos conservadores que  nada têm feito pelo povo. Acordem! Muita gente quer um golpe para beníficio próprio, e quem tem a perder são vocês!

segunda-feira, 16 de março de 2015

Por que não vou às ruas dia 15/03

Por que não vou às ruas dia 15:
0. "É que eu quero evitar a fadiga".
1. Porque já fui obrigado a ir em Outubro e não vou ficar de mimimi reclamando da decisão da maioria.
2. Porque eu tenho ideia das consequências políticas e econômicas de um impeachment.
3. Porque não há ninguém muito melhor para assumir o cargo (no máximo um pouquinho melhor em alguns aspectos).
4. Porque eu não sou burro o suficiente para reclamar da alta dólar e pedir impeachment; estas podem ser coisas muito contraditórias.
5. Porque agora estamos vendo mais escândalos de corrupção do que antes. Será que foi a corrupção que aumentou ou há uma tímida tentativa de combate-la?
6. Porque a manifestação do dia 15 é uma palhaçada partidária liderada por partidos também envolvidos em escândalos de corrupção
7. Porque a manifestação é apoiada por alguns setores extremistas da sociedade, incluindo grupos neonazistas, religiosos radicais, pessoas que querem intervenção militar, etc.
8. Porque apesar das minhas críticas ao governo, eu não me deixei tomar pelo antipetismo patológico que permeia a sociedade (e infelizmente minha timeline).
9. Porque eu sei que o país não vai mudar de uma hora para outra, e consigo ver que devagar as coisas estão melhorando (não sei dizer se com outro presidente seria diferente)
10. PORQUE NÃO HÁ MOTIVOS PARA UM IMPEACHMENT. Pressionar e criticar o governo é uma coisa, tirar um governante eleito democraticamente do poder sem motivos é outra (e não me venha falar em corrupção).

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Sobre o comunismo, o PT, o BraZil e meu ódio por algumas pessoas

Cada vez que eu vejo as pessoas falando que a "Dilma e o PT" querem implantar o comunismo no Brasil, me dá um desespero. Ainda mais quando vejo petições "da Casa Branca" para evitar que o Brasil se transforme num país comunista. Eu odeio gente burra! E não estou falando de burrice no sentido "acadêmico" da palavra. Estou falando das pessoas que se dizem intelectuais, mas desconhecem o real significado do comunismo. Pessoas que se dizem estudadas porque fizeram uma graduação ou um mestrado qualquer (muitas vezes em universidades públicas criadas durante o governo que tanto criticam) e falam em meritocracia, se esquecendo que para ter mérito é preciso primeiro ter condições para demonstra-lo. Pessoas que se acham superiores por terem condições de viajar para este ou aquele lugar, comprar um carro novo, mas desconhecem as competências de cada instância governamental, culpando o PT (sim, um partido) pela falta de água em um estado que não é governado por ele (São Paulo). Por estas pessoas só tenho meu mais profundo sentimento de desprezo. Vocês são muito burros, e não estou falando de ignorância por desconhecer uma coisa ou outra. Estou falando de burrice por não enxergarem o que está ao seu redor. 

Este é o mesmo tipo de pessoa que demonstra "nordestinofobia", um preconceito sem embasamento contra nordestinos. Muitos colegas nordestinos eram muito melhores do que eu em tudo - tiravam notas mais altas, eram mais inteligentes, conseguiam oportunidades que eu não conseguia. Então eu acho que eu deveria ser um nordestinofóbico, mas não sou. Aliás, na minha opinião existe muito potencial no povo nordestino, potencial este que ainda não está sendo explorado por diversas razões. Estes mesmo nordestinos contra quem estas pessoas têm preconceito são frequentemente pessoas e profissionais muito melhores que elas, e que graças a alguém que lhes estendeu a mão, aproveitaram as oportunidades e hoje são bem sucedidos em suas vidas.

Dentre estas pessoas existem os que falam só sobre o Bolsa Família (e congêneres) e acham que "falar de política" se resume a criticar o único programa do governo que eles conhecem. Eles dizem não concordar pois conhecem Fulano que não deveria receber, mas recebe. Sobre isto eu só digo uma coisa: que 99% do dinheiro seja desperdiçado com pessoas que não precisam, desde que 1% das pessoas melhorem de vida e saiam de uma situação de miséria, o programa é válido (apesar de precisar de melhor fiscalização).

É claro que vocês podem ficar insatisfeitos com o resultado das eleições, mas tomem cuidado para não falar asneiras. Não estou aqui para defender Dilma ou Aécio, e sim para atacar verbalmente o tipo de pessoa acima mencionado. 

Aos que estão compartilhando este link,  uma petição criada por um indivíduo qualquer no excelente sistema de petições da Casa Branca,  prestem atenção na merda que estão fazendo. Primeiro: não é a Casa Branca que está promovendo isto, é um indivíduo através do site dela. Então parem de fazer propaganda falsa. Segundo: a menos que vocês tenham provas que houve fraude no sistema eleitoral (eu reconheço que pode ter acontecido), e esta fraude em larga escala seja capaz de explicar a  diferença de votos (3 milhões), então fiquem quietos e saibam perder. Façamos uma estimativa simples: número de eleitores por seção (1 seção = 1 urna), e o número de urnas que precisariam ser adulteradas para somar 3 milhões de votos! Naturalmente, não espero que estas pessoas sejam capazes de fazer esta conta.

Eu sou anarquista por ideologia e social democrata por pragmatismo. Apesar do meu posicionamento social democrata, votei na Dilma e não no Aécio pois o PSDB está longe do SD de sua sigla, assim como também o PT está longe de sua ideologia. Eu acho o discurso de muita gente lindo, falando de bolsa de valores caindo, taxa de juros, inflação - verdadeiros doutores em economia - que estufam o peito para propor a separação do país sem nem ao menos conseguir fazer um simples cálculo percentual que apontará que a Dilma obteve mais votos no Sudeste e Sul do que no Norte e Nordeste.  Também acho lindo o discurso de vocês de meritocracia, e eu até concordo! Só não acho lindo sua ignorância ao não entenderem o que é meritocracia, e como as condições iniciais devem ser iguais. Vocês realmente acreditam que uma pessoa que caminha duas horas para ir estudar, com fome, e que depois trabalha o resto dia, está nas mesmas condições de alguém que só estuda, não passa fome, tem acesso a uma boa educação, etc? É como querer que dois corredores, um com um excelente tênis e outro descalço, corram sobre o asfalto quente, e esperar que o melhor vença. Não faz sentido!

Tem também o tipo de pessoa que eu chamo de pescador esportivo, com a frase pronta "tem que ensinar a pescar, e não dar o peixe". Os pescadores esportivos não entendem que uma pessoa sem uma vara de pesca e longe de um rio não conseguirá pescar. É preciso dar-lhe no mínimo uma vara e mostra-la onde está o rio.

Outro tipo de pessoa é o "viajado", aquele que conheceu este e aquele lugar, e que sempre cita a Europa como exemplo. Na Europa muitas coisas são, de fato, melhores. Há menos desigualdade social, melhor segurança, etc. A grosso modo, um faxineiro e um engenheiro são vizinhos no mesmo andar de um prédio, e têm condições de pagar o mesmo aluguel. Na Alemanha, por exemplo, o governo está frequentemente interferindo na economia (não é atoa que foi o país da Europa que melhor sobreviveu à crise de alguns anos atrás). Ora, mas interferência do governo na economia não é uma prática pouco liberal, e o oposto de liberalismo não é o comunismo? Se você pensa isto e "deu certo na vida", a meritocracia falhou, pois alguém tão burro para pensar assim após anos de estudo não merece sequer ter tido uma vaga em uma universidade.

Eu falei sobre os vários tipos de pessoas que existem, e apontei as razões pelas quais eu as considero burras. Eu não suporto pessoas que não aceitam a derrota, e que ainda por cima disseminam a desinformação (devem ler a Veja).

Se você tem o perfil que eu descrevi acima, eu não gosto de você e não quero ser seu amigo. Sugiro que você vá para os EUA, a terra das oportunidades. Lave uns pratos, demonstre seu mérito, e espere o dia em que você ficará bilionário (a) - afinal, é só seu esforço que conta.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Esse tal Chopis Centis...




Mamonas Assassinas: ídolos musicais de uma geração. Entre seus inúmeros trabalhos estão as conhecidas canções "Robocop Gay" e "Pelados em Santos". Pode-se adicionar a esta lista uma canção que não é simplesmente uma canção, mas um profecia: "Chopis Centis". Esta canção retrata a recente ascensão econômica da chamada classe C, que com maior poder aquisitivo começou a comprar diversos eletroeletrônicos que até então eram privilégio das classes mais favorecidas. Isto pode ser visto no trecho "A minha felicidade / É um crediário / Nas Casas Bahia". Nesta mesma música há um outro trecho muito interessante:

Esse tal "Chópis Cêntis"
É muicho legalzinho,
Pra levar as namoradas
E dar uns rolêzinhos

Pois é. A profecia fez-se cumprir. A classe média ascendeu (pelo menos é o que parece). 

Agora jovens de periferia também têm acesso aos mesmos meios de entretenimento que a classe média. Um destes meios são os shopping centers, onde a juventude caminha de um lado para o outro nos fins de semana, e fazem um "social". Agora os jovens de periferia também resolveram fazer a mesma coisa. Qual o problema?  Na visão dos agentes da lei, governantes, donos de shopping e das classes mais ricas, o problema é: "Éééééé..... Éééé... Ah, eles não deviam marcar de vir ao shopping todos de uma só vez, no mesmo dia". [E ainda dizem que os jovens que participam deste rolezinhos - designa-los-ei apenas por "rolezeiros" - precisam de mais educação, mesmo sendo esta hipócrita classe privilegiada incapaz de argumentar lógica e coerentemente.]  Então, qual é o problema? Eu direi qual é o problema. Os ricos não gostam de ver pobres (arriscaria dizer pretos, já que a correlação é óbvia por razões históricas) nos locais tradicionalmente frequentados por eles. Isto não "agrega valor ao camarote". Podemos fazer uma analogia com os Estados Unidos e Europa no final do século XIX e início do século XX, quando da dicotomização política e social (mas não econômica) entre a aristocracia (old money) e os nouveau riche (new money).

Nas discussões recentes sobre os rolezinhos tenho visto que não há argumentos de verdade para vedar o acesso dos rolezeiros ao Chopis Centis. Existe apenas uma estúpida lei que qualifica qualquer agremiação não autorizada como crime. Nós, enquanto indivíduos livres, não devemos aceitar leis que decidam com quem, quantos, onde, ou quando podemos nos encontrar. Este tipo de restrição é conveniente a Estados totalitaristas que querem suprimir agremiações potencialmente perigosas à manutenção do governo e da ordem vigente. Enquanto o Estado interferir na economia, todos os estabelecimentos comerciais, incluindo os shoppings, devem tratar os potenciais consumidores igualmente, incluindo rolezeiros, brancos, pretos, azuis, homens, mulheres, transsexuais, hermafroditas, etc. Mesmo sendo o shopping uma propriedade privada, ele é, antes de tudo, um estabelecimento comercial, e deve permitir o acesso de todas as pessoas, conforme a lei que protege os cidadãos da discriminação.

Faço aqui um parênteses para expor minha real opinião. O Estado interfere excessivamente na economia e na vida das pessoas. Seu papel deveria ser minimizado. Não estou propondo um anarquismo total, pois não acho que todos os seres humanos já estejam preparados para a verdadeira anarquia e para a auto-gestão, mas um Estado mínimo, algo próximo à minarquia, nos moldes do pensamento objetivista de Ayn Rand. Neste cenário, prevaleceria o verdadeiro livre mercado, que por definição não sofre interferência estatal.  E o que isto tem a ver com os rolezinhos? Neste meu mundo quase-ideal, por ser o shopping uma propriedade privada, é direito do dono restringir o acesso, permitindo a entrada apenas de pessoal autorizado. Sendo assim, os rolezeiros teriam que ir rolezar em outro lugar.

À parte cenários ideais presentes em meu pensamento, no mundo real o shopping não pode impedir a entrada de ninguém. É possível restringir o número máximo de pessoas no shopping por razões de segurança, mas não quem efetivamente está lá dentro.

Outra questão relevante é a real motivação dos rolezinhos. Os rolezeiros dizem não estar protestando contra nada. Eles só querem ir ao shopping, "levar as namoradas, e dar uns rolezinhos", e ostentar roupas, calçados e acessórios extremamente caros numa frívola disputa por sei-lá-o-quê. Não sei como pagam por isto, já que eu que trabalho mais de 10 horas por dia, tenho um celular antigo, e quando preciso comprar um tênis acho 150 reais caro. Desde que realmente paguem honestamente por estas coisas - isto inclui parcelar a dívida em 1000 vezes - eu não dou a mínima. Quer ostentar? Vai ostentar na PQP, na casa da vovó, ou no shopping, não é meu problema. Vocês são livres para ostentar onde quiserem, assim como eu sou livre para achar isto ridículo (mas ainda assim defendo o direito dos rolezeiros de serem o que quiserem - incluindo ridículos).


O que escreverei agora aplica-se apenas aos rolezeiros ostentadores, que são a maioria. O que me preocupa é a matemática. Eu sei que os pais de muitos rolezeiros trabalham em 2 ou mais empregos, e por isto conseguem proporcionar uma "melhor" qualidade de vida aos seus filhos. Outros rolezeiros trabalham quatro meses para comprar a camiseta que usa. Mas não sejamos ingênuos. Não é possível que todos eles tenham todos aqueles produtos sem terem apelado para meios ilícitos. Não estou acusando ninguém de roubo. Apenas chamo atenção para o óbvio que tem sido esquecido em prol daquele discursinho pseudo-intelectual, que tenta atribuir um diferente caráter (sociopolítico) a uma mera bagunça de jovens: o fato de que a matemática não está correta! 

Encerro com um discurso interessante supostamente publicado por um rolezeiro que organizou um dos rolezinhos. Meu recado para os revolucionários-wannabe protetores dos fra(s)cos e (c)o(m)primidos: vejam a última parte grifada.